Aerosmith comenta os álbuns clássicos da banda

O Aerosmith fez uma paródia do famoso autor F. Scott Fitzgerald: “Não há segundos atos em vidas americanas”. Nos anos 70, o quinteto de Boston se tornou a maior banda de hard rock da América, mas implodiu no final da década, enquanto os egos e as drogas saíam do controle. Apenas em meados dos anos 80, a banda reemergiu para encenar um retorno espetacular com uma nova geração de fãs.
Este ano temos visto o movimento oscilante do Aerosmith com a preocupação de que o vocalista Steven Tyler, com sua carreira solo de música country, saísse da banda, o que provocou rumores de que o grupo iria para a estrada com um vocalista convidado neste outono (rumores já negados oficialmente pela banda).
Sempre explosivo, o futuro da banda pode ser incerto. Independentemente do que vier a acontecer, não há como não discutir com o seu passado. Foi isso que os membros do Aerosmith fizeram: junto do site Team Rock, falaram sobre alguns seus primeiros álbuns. Confira:

Aerosmith (1973)
O ponto onde tudo começou.
hqdefault

Cara, vou falar a verdade! Esse álbum foi o melhor. Estávamos vivendo juntos em um apartamento em Boston e tivemos que juntar as músicas que estávamos tocando em clubes e escrever algumas próprias. Foi um período louco, Joe sentava-se em seu quarto, ficava chapado e tocava guitarra com seu amplificador ligado e, juro, melhores coisas saíram de seus dedos em apenas uma noite do que jamais fizemos em 30 anos. Joe e eu escrevemos Movin’ Out e o que eu sabia era que todo mundo estava se mudando, para viver com suas namoradas. No meu período de medo e raiva eu escrevi um par de músicas no piano, Dream On e One Way Street e peguei uma guitarra e escrevi algumas canções sobre tudo isso, o que eu nunca tinha feito antes. Isso só mostra o que você pode fazer sob pressão.
Steven Tyler

Eu não tinha ideia do que precisava para obter um bom som. Nós basicamente nos trancamos em um quarto com o nosso equipamento de palco e só misturamos tudo, foi muito básico. Steven foi um verdadeiro perfeccionista, ele nos fez tocar as coisas de novo e de novo e de novo, até que estivesse bom para seus ouvidos.
Joe Perry

Será que aquilo cruzou os limites de assédio moral? Bem, como diabos você pede para um bando de adolescentes para parar o que estão fazendo e se concentrar? É difícil estar em uma banda, mas a diferença aqui foi que ninguém saiu, ninguém foi para a faculdade, todos estávamos enterrados nisso. Nós conseguimos cara!
Steven Tyler

 

Get Your Wings (1974)
O som de uma banda jovem encontrando sua voz. O primeiro álbum do Aerosmith com o produtor de longa data Jack Douglas.

hqdefault (1)

Nosso primeiro disco lançou as bases para a nossa carreira, mas Get Your Wings foi onde começamos nosso romance com Jack Douglas. Ele tinha essas grandes ideias para nossas músicas, ouvíamos canções como Same Old Song And Dance saírem dos alto-falantes e pensávamos que estávamos sentados em uma montanha de ouro.
Brad Whitford

Estávamos sob muita pressão neste álbum. Quando o nosso primeiro disco saiu não fez muito sucesso, a gravadora ficou muito decepcionada. Eles nos deram um ultimato, praticamente disseram: “Se o seu próximo álbum não fizer sucesso, então vocês não gravarão mais nada”. Assim, todos nós vivenciávamos o álbum a cada dia que se passava. Tivemos o primeiro álbum sob nosso controle, por isso sentimos que sabíamos o que estávamos fazendo no estúdio e Jack Douglas realmente iluminou nossa criatividade.
Tom Hamilton

No primeiro álbum eu realmente não gostava da minha voz, então eu meio que coloquei uma voz de blues. No segundo álbum as músicas encontraram a minha voz. Percebi que não se trata de ter uma bela voz e acertar todas as notas, é uma questão de atitude.
Steven Tyler

Como tivemos tão pouco apoio da rádio no álbum anterior, o nosso empresário percebeu que tínhamos a necessidade de sair em turnê. Foi realmente ótimo para a banda, em termos de progressão com nosso estilo e habilidade como músicos, mas infelizmente ela [a turnê] progrediu com nossas habilidades em algumas outras coisas também…
Tom Hamilton

Toys in the Attic (1975)
O primeiro verdadeiro clássico do Aerosmith. Sweet Emotion, Walk This Way e a faixa título do álbum nunca mais deixaram o setlist da banda.
maxresdefault

Este foi o divisor de águas para nós para tornarmo-nos artistas de verdade. Foi o primeiro registro, tivemos de começar tudo do zero, inclusive com a escrita, mas eu estava realmente começando a entrar no ritmo dela e começando a pegar riffs do ar.
Joe Perry

Uma noite nós estávamos tocando no HIC em Honolulu e, na passagem de som, Joe estava tocando o lick de Walk This Way e eu apareci no palco e sentei na bateria e comecei com uma batida e o resto é história. No caminho para gravá-la eu perdi todas as letras escritas para o álbum em um táxi, e assim, naquela noite, eu tive que reescrever as letras de cabeça. A razão pela qual surgiu como algo meio parecido com um rap foi porque eu realmente não tinha tempo para ir para a cama com as letras. Elas estavam quentes, recém-escritas, então eu apenas as joguei. Por isso, nas músicas, pareço falando mais do que cantando. Mas eu acho que funcionou muito bem, não é?
Steven Tyler


Rocks (1976)

O álbum que inspirou Slash, James Hetfield e Kurt Cobain a tocar guitarra.

Nós gravamos no nosso próprio espaço de ensaio, nos arredores de Boston. Tivemos parte da gravação no [estúdio] Record Plant em um caminhão na garagem. Tivemos um grande quarto que nós cobrimos com cortinas pesadas e transformamos em uma sala de gravação pura. Havia um monte de risadas e muita camaradagem. Todo mundo estava no seu melhor naquele álbum.
Tom Hamilton

Havia um monte de drogas ao redor, mas foi algo que ajudou a nos soltar um pouco. A música sempre vinha em primeiro lugar, todo o resto foi apenas entretenimento. A festa só começou a tomar conta de nós depois de alguns anos.
Joe Perry

Todo mundo fala sobre as drogas, mas se você quiser falar sobre coisas que têm alguma relevância, é melhor falar de outra coisa. As drogas eram parte do nosso estilo de vida, mas a privação do sono é tão importante quanto. Teríamos que sentar com Jack e ter algo em sete ou oito horas e ir e gravá-lo no dia seguinte. Então, para mim, esse álbum não é sobre “Quanto cocaína que você usou?” Tem tudo a ver comigo sentado em um hotel sujo na cozinha do inferno escrevendo letras após um longo dia no estúdio, quando a rua 42 estava cheia de prostitutas e cafetões e bares obscuros. Rocks soa rude e sujo? Que seja, nossas vidas foram atrevidas e sujas. O que mais você esperaria?
Steven Tyler

Draw the Line (1977)
Gravado em um convento abandonado perto de Nova York mas com nenhuma santa vibração capaz de parar as rodas desta banda.
7c5d0eb3dea99e70669dd082170635b5

Tivemos tudo neste antigo convento. Tivemos fornecedores, nossos carros, e fizemos todos os tipos de travessuras. Tivemos um grande conjunto para fazer o disco, mas também tivemos um monte de distrações…
Brad Whitford

Nós estávamos correndo selvagemente. A coisa toda sobre estar em uma banda estava sendo bom, mas, às vezes, o bom ultrapassa os limites. Nós provavelmente deveríamos ter deixado alguns de nossos brinquedos em casa. Estávamos todos gravando em salas separadas e isso é uma analogia apropriada para onde a banda estava.
Joe Perry

Esse álbum foi todo estranho. Este foi o fim da banda ficando unida o tempo todo para escrever. Todo mundo estava casado. Tremo quando me lembro. Além de Draw the Line e Kings And Queens, deveríamos ter jogado tudo fora e começado do zero.
Steven Tyler

Em termos de consumo de drogas, Draw the Line foi o ponto mais obscuro. Não foram apenas a decadência e destruição. Fomos de uma grande banda para aquela desordem em ruínas. Eu nunca gostei do álbum, tudo o que eu penso é em toda a dor que passamos juntos como uma banda.
Tom Hamilton

Night in the Ruts (1979)
Aquele em que as rodas pararam. Joe Perry saiu no meio das sessões de estúdio: Brad Whitford e Tom Hamilton não estavam muito atrás.
aerosmith1979

Night in the Ruts era a nossa chance de fazer as coisas voltarem aos trilhos, mas foi apenas frustrante. Levamos muito tempo para fazer o disco e tivemos uma turnê, deixando apenas o tempo suficiente para fazer o álbum baseado em quanto tempo levamos no passado. Mas nós realmente necessitávamos de muito mais tempo, então tivemos que sair em turnê antes dos vocais terminarem e ele estava apenas se arrastando cada vez mais. Todos estávamos super frustrados e é irônico, porque estávamos na estrada tocando em estádios para enormes quantidades de pessoas e, ainda assim, a banda se preparava para acabar. Depois de um show em Cleveland, nos bastidores, tivemos uma grande reunião da banda em um dos camarins e o resultado foi que Joe deixou a banda e, para ser honesto, foi um alívio, porque estar na estrada era tão desconfortável. Havia tanta raiva, estresse e fadiga que a banda não poderia ter sobrevivido e então pensamos, “Ok, vamos trazer outra pessoa e fazer direito de novo”. Mas não era para ser.
Tom Hamilton

Os créditos de composição contam a história do que foi o álbum. Não é como Toys in the Attic, onde todas as canções foram escritas por nós. Tem um monte de covers, era uma colcha de retalhos. Foi tumultuado, na melhor das hipóteses. Tínhamos sido feridos muito rapidamente, tanto na turnê quanto no estúdio. Joe decidiu não estar lá e Tom e Brad também deixaram a banda durante esse tempo. Eu voltei para Boston, porque não estava trabalhando no álbum rápido o suficiente para eles. E eu dizia “Bem, então por que você não escrevem as letras?” Então eu estava tentando chamar Jimmy Crespo para ser o próximo Joe Perry, mas ele não tem o mesmo estilo do Joe. Eu realmente não sabia o que ia acontecer depois disto tudo então eu escrevi No Surprize, contando a história de vida da banda até aquele ponto. A letra faz referência ao Max’s Kansas City, onde fomos descobertos por Clive Davis. Haviam tantas bandas lá, seja trabalhando em suas carreiras, como The Dolls, Bowie, etc, ou apenas se drogando. Lembro-me que tínhamos o Lou Reed sentado próximo a nós enquanto nós estávamos jogando grão de bico um para o outro.
Steven Tyler

Done With Mirrors (1985)
Perry saiu da banda em 1979 durante o Night in the Ruts e Whitford logo depois. Ambos retornaram para este álbum, o muito elogiado ‘retorno’ do Aerosmith. Só que não foi bem dessa maneira.
JDKAerosmith1985

O Aerosmith realmente não tinha feito muito para si em nossa ausência, com Steven desmaiando em shows e aquele disco com os outros guitarristas [Rock in a Hard Place em 1982, com Jimmy Crespo e Rick Dufay]. Vamos apenas dizer que nós não tocamos qualquer canção dele. Não foi um mar de rosas quando voltamos, houve momentos em que eu estava pensando”‘eu tenho que arranjar um trabalho de verdade, este é um jogo de criança”.
Joe Perry

Não foi um dos nossos melhores álbuns. Sabíamos que tínhamos algum trabalho a fazer para voltarmos a ser músicos profissionais novamente, porque naquele momento nós éramos meio músicos, meio festeiros. A festa tinha acabado naquele momento, mas fomos os últimos a saber. O título do álbum tinha certa ironia a ele porque o nosso uso de drogas ainda era bastante comum.
Brad Whitford

Permanent Vacation (1987)
O retorno de fato. O maior álbum do Aerosmith em uma década, com a parceria com compositores profissionais, tais como Desmond Child e Jim Vallance.
1401x788-85362511

Assim que sentamos com David Geffen e John Kalodner, eles nos falaram sobre trazer algumas novas pessoas para escrever com a gente. Para mim, pessoalmente, foi ótimo, porque, às vezes, Joe e eu precisávamos de estrutura. Isso tornou tudo um pouco mais fácil para nós. Cara, houveram algumas grandes canções naquilo.
Steven Tyler

Tal como aconteceu com Get Your Wings, havia um certo “faça ou declare falência” para esse álbum. Mas nós trabalhamos com Bruce Fairbairn em Vancouver e ele era a personalidade que precisávamos naquele ponto. Precisávamos de um líder forte e um treinador que iria chutar nossas bundas e certificar-se de que todos estavam lá e prontos para trabalhar todos os dias, em vez de nos sentar toda a tarde à espera da ressaca das pessoas se desgastando. Nosso objetivo foi um pouco maior do que antes e realmente bateu a meta, em comparação com Done With Mirrors.
Tom Hamilton

Nos sentíamos rejuvenescidos, e trabalhar com Bruce Fairbairn e Bob Rock em Vancouver foi muito divertido. A música definitivamente voltou a ser o foco. John Kalodner influenciou muito na utilização de escritores de fora e desenvolveu algumas músicas realmente muito interessantes. Quero dizer que é um pouco de golpe para o ego ter alguém dizendo “sua escrita poderia ter ajuda”. Num primeiro momento você não sabe como lidar com isso e era um ponto sensível para nós, mas quando recuamos e ouvimos o que John estava dizendo, fazia sentido. John nos disse “Olha, vocês estão em uma posição aqui em que, se tiverem algum material forte, poderão expandir o seu público, conseguindo a MTV e a rádio, podendo fazer coisas incríveis para a carreira de vocês”. Foi difícil, porque toda a escrita até aquele momento era um coletivo entre a banda, por isso era muito difícil se acostumar, porque estávamos trabalhando muito separados. Doeu um pouco, mas fazia sentido tentar. John estava certo e valeu a pena. Se tivéssemos sido teimosos, poderia não haver uma Aerosmith agora.
Brad Whitford

Pump (1989)
Se o Permanent Vacation colocou o recém-sóbrio Aerosmith de volta no topo, então este coroou o seu retorno. Eis o último verdadeiro clássico.
JDKAerosmithRehearsal1989

Tivemos a sorte de fazer o remake de Walk This Way com o Run-DMC, o que reacendeu a nossa carreira. Seguindo Permanent Vacation, Pump foi um verdadeiro segundo retorno. Alguém lá em cima estava olhando por nós.
Joey Kramer

Há coisas realmente muito boas naquele disco. Young Lust? What It Takes? F.I.N.E.? Love in an Elevator? Conseguimos alguns “mármores de primeira” com esse disco. Nós, na verdade, terminamos 18 músicas para esse álbum, e algumas delas você nunca vai ouvir. Tivemos que enterrar um monte de coisas boas.
Trabalhar com o [produtor] Bruce Fairbairn foi incrível, ele poderia espremer sangue de uma pedra, em termos de obter até cada última ideia de uma banda. Mas todos os dias ele ia trabalhar conosco por seis horas e depois nos deixava, e eu odiava isso porque eu só poderia continuar até o ponto onde a magia está acontecendo para mim. Lembro-me de um dia em que todos saíram e eu fiquei trabalhando em [Love in an] Elevator na minha, improvisando a parte inicial dela.
Bruce Fairbairn me apresentou a essa cara louco que vivia nas colinas em Vancouver, que coletou todos estes instrumentos ao redor do mundo. Quando fui até a casa dele, fiquei de queixo caído. Ele tinha tudo, de flautas de nariz a instrumentos etíopes, e ele conseguia tocar todos eles! Então comecei a tocar com ele e nós levamos essas jams e colocamos de volta nos trilhos e foi aí que a mágica levou esse álbum para cima.
Steven Tyler

Fonte: TeamRock.com

Comentários

comentário(s)

Marcos Brazão
Acadêmico de Direito; Guitarrista nas horas vagas; Amante de tecnologia, futebol, Direito e Aerosmith, lógico! Twitter/Instagram/Facebook: mabsf
Recommended Posts
Entre em contato conosco

Entre em contato conosco e responderemos o mais breve possível.

Not readable? Change text. captcha txt